Experiência em Mediação Assistiva: do virtual para o híbrido com pessoas com deficiência intelectual

Decidimos escrever este texto para compartilhar as estratégias de Mediação Assistiva e de construção conjunta entre uma equipe de mediação que participei e um grupo de adultos com deficiência intelectual. 

O objetivo deste texto é mostrar as possibilidades de construção e tomada de decisão conjunta, considerando apoios, compreensão e valorizando o protagonismo das pessoas com deficiência intelectual.

Grupo Adulto com Autonomia 

O grupo Adulto com Autonomia, mediado por nós, conta com a participação de pessoas adultas com deficiência intelectual. 

Ele tem o objetivo de colaborar para o planejamento do Projeto de Vida e também para a conquista de autonomia das pessoas participantes. 

Os encontros são semanais e, quando presenciais, eles têm duração de 2h30, sempre utilizando um espaço público que possa gerar desafios e experiências.

Toda a dinâmica do grupo é planejada e construída em conjunto, considerando a opinião, o desejo e os desafios de autonomia de cada integrante. Entendemos que a vivência em grupo pode trazer modelos variados de estratégias. 

O grupo também se torna uma rede de apoio que, por meio do vínculo e da confiança, permite vivências que não ficam apenas focadas na relação com a pessoa especialista mediadora. 

Grupo Adulto com Autonomia e a Pandemia

A pandemia foi decretada em março de 2020. Isso fez com que pensássemos em novas formas de atendimento e de nos relacionarmos com as pessoas. 

A partir disso, o grupo Adulto com Autonomia precisou ser repensado respeitando o momento que o mundo estava vivendo.

Entre março de 2020 e setembro de 2021, tivemos encontros semanais em formato virtual, com duração de 1h30, usando plataformas online (inicialmente usamos Skype e depois o Zoom).

Durante a pandemia, o grupo não teve suas experiências na comunidade, mas teve sua experiência virtual. 

Os participantes encontraram diversos desafios, como utilizar aplicativos pela primeira vez, enfrentar a instabilidade da internet, trabalhar a escuta, a concentração, entre outros. 

Os desafios foram sendo vencidos e assim, a partir dos aprendizados, a vida virtual trazendo menos interesse.

A possibilidade de retorno presencial com a vacina

Em maio de 2021, a primeira dose da vacina começou a ser ofertada para várias pessoas do grupo. A partir disso, voltamos a conversar sobre retorno, mas nem todos estavam seguros. 

Aos poucos, conversamos com o grupo para saber a opinião de cada um e depois realizamos uma conversa envolvendo as famílias. Nesse encontro, ficamos de voltar a conversar no final de setembro, quando entendemos que todos estariam vacinados e a realidade poderia ser outra. 

Exercício de escolha sobre possibilidades para os encontros do grupo

O tempo passou e setembro chegou. Começamos a nos preparar para uma nova conversa. Era preciso pensar como construir essa reflexão pensando na plena participação de todos do grupo.

Primeiro voltamos com o assunto em um encontro. Depois criamos uma pesquisa para saber qual formato de atendimento aconteceria a partir de setembro. 

O conteúdo foi construído utilizando técnicas da Linguagem Simples para que os participantes e suas famílias pudessem conversar sobre o assunto.

Primeiro passo: com as pessoas participantes 

A pesquisa foi pensada com foco em favorecer a conversa entre os participantes e suas famílias. Não era um pedido de autorização para a família, mas sim um instrumento para que cada um pudesse colocar o seu ponto de vista. 

Para que o objetivo fosse atingido, o formulário de pesquisa contou com um roteiro a ser seguido, além da apresentação para o grupo.

A apresentação do formulário tinha como proposta: tirar as dúvidas, a apropriação do processo, o compromisso de responder o questionário, o cumprimento do prazo de resposta. 

O grupo tem participantes alfabetizados e outros não. Por isso, pensamos em estratégias diferentes para que todos pudessem participar. 

Nessa fase, tivemos uma adesão de alguns e outros não. Ponto importante que precisava ser trabalhado, pois era muito importante a participação e a opinião de todos. O prazo acabou após alguns encontros e nem todos responderam os questionários. 

O não cumprimento desta fase era um ponto a ser discutido. Fizemos algumas perguntas: 

  • Isso estava relacionado com o entendimento? 
  • Com a apropriação do processo? 
  • Com a decisão de não participar dessa tomada de decisão? 
  • Apresentava dificuldade em levar alguns assuntos à sua família? 

Tudo isso, claro, entre outras possibilidades. Todas essas perguntas fizeram parte da nossa reflexão sobre a estratégia. O objetivo é que cada pessoa pudesse contribuir de alguma forma com os apoios necessários.

O importante é que as ações concretas e planejadas sejam um processo de aprendizado contínuo para a mudança de atitude com entendimento do protagonismo em um processo de decisão. Parece algo óbvio, mas não é fácil no seu dia a dia.

Segundo passo: com as famílias

Na sequência, sugerimos o seguinte ao grupo: um encontro com todos, incluindo pessoas da família. Tudo seria feito pelos participantes: o convite para as famílias, a confirmação da presença, o encaminhamento do link online. 

Durante a semana, fomos trabalhando alguns detalhes para que pessoas com maior ou menor autonomia pudessem construir o seu caminho com a meta de convidar as famílias para reunião e colaborar com a decisão.

No dia do encontro, todos puderam se colocar: pais, filhos, profissionais. Ao final, não concluímos qual seria o novo modelo de atendimento. 

Terceiro passo: a decisão sobre os atendimentos

Relembrando: não chegamos a uma conclusão sobre a nova forma de encontros do grupo durante o encontro com as famílias e participantes. Parte do grupo queria continuar no virtual e parte do grupo no presencial.

Entendendo a importância do desafio e responsabilidade pela decisão final pensamos em 4 opções de atendimento. O objetivo é que o grupo pudesse escolher e tivesse a possibilidade de ser avaliado de tempos em tempos. 

No encontro seguinte, as opções foram levadas com uma preocupação com a qualidade do atendimento.

Entre as possibilidades: 

  1. Encontro presencial, 
  2. Encontro virtual, 
  3. Encontro híbrido,
  4. Encontro continuarem virtuais e 1 vez ao mês um encontro presencial.

O grupo votou, no encontro híbrido, inicialmente usando a casa dos participantes, ainda não usando espaços da comunidade.

Encontro híbrido

No dia 01/11/2021, tivemos o primeiro encontro híbrido. Parte do grupo participou de forma virtual e a outra parte do grupo participou de forma presencial.

Observações finais:

Todo esse relato parece tão simples, não é? Mas se olharmos cada pessoa do grupo, seus receios, sua independência, sua autonomia e tempo para o processo de escolha, tem detalhes difíceis de apresentar aqui.

A singularidade, a estratégia e o olhar para potencialidade são fundamentais em um processo de mediação. 

O que torna um processo aparentemente simples em algo rico de construção e de entendimento do seu papel na comunidade, na vida e acima de tudo o que envolve ser adulto.

Texto escrito por Juliana Barica Righini e Cátia Macedo

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